Nova terapia com choque pode ser terceira opção de tratamento para a depressão

NOTÍCIAS | 30 maio

Dr. Renato Ferreira Araújo, Mestre em Neurociência e professor da Pós-graduação Médica IPEMED em Psiquiatria, fala sobre o assunto

 

 

Matéria divulgada pelo Portal UOL informou, recentemente, que cientistas americanos da Universidade de Michigan desenvolveram uma nova eletroconvulsoterapia mais leve que pode ser considerada uma nova opção de tratamento para a depressão. A pesquisa indica que os pacientes recebem o método somente depois de tentarem o uso de cinco a sete antidepressivos. O resultado da revisão desse estudo mostrou que a eletroconvulsoterapia teve mais resultado nos pacientes que tentaram duas outras terapias, sem sucesso, feitas com antidepressivos. O estudo descobriu ainda que quanto antes a terapia de choque for aplicada, mais livres dos sintomas da depressão os pacientes ficam (cerca de dois terços do tempo).

O Professor da Pós-graduação Médica na Faculdade IPEMED e Mestre em Neurociências Instituto – ICB da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, o psiquiatra Renato Ferreira Araújo, falou sobre estas novas terapias contra a depressão. Confira a entrevista:


1 - Recentemente, pesquisadores americanos desenvolveram um novo tipo de eletroconvulsoterapia para tratamento da depressão. Conhecendo o histórico das terapias de “choque” no tratamento psiquiátrico, como o senhor enxerga esse tipo de tratamento?

O desenvolvimento da eletroconvulsoterapia tem ocorrido de forma mais efetiva nos últimos 20 anos. As principais mudanças são na corrente elétrica (pulso ultra-breve) e no posicionamento dos eletrodos (unilateral direito) para a aplicação do tratamento. O objetivo é manter a elevada taxa de eficácia com o menor prejuízo sobre a cognição (memória). O uso da anestesia geral com o relaxamento muscular também é uma prática obrigatória em todo o mundo. Mais recentemente, pesquisas ainda em desenvolvimento têm utilizado uma nova técnica de convulsoterapia, a magneto-convulsoterapia, com resultados promissores para o futuro.
 

2 - Por que a depressão, embora seja uma doença tão disseminada, continua apresentando-se como um desafio para psiquiatras e outros profissionais?

A depressão é uma doença crônica com elevado grau de morbidade e, ainda, muito pouco reconhecida pela população e pela comunidade médica. Além disso, muitos pacientes não respondem ao tratamento medicamentoso, ficando doentes por muitos anos e, assim, demoram para realizar a eletroconvulsoterapia. 
 

3 - Como se dão as terapias de choque atualmente? Por que elas são vistas com desconfiança?

Atualmente, a eletroconvulsoterapia é realizada de modo extremamente seguro e humanizado. Para o paciente ser submetido ao tratamento é preciso que ele passe por exames clínicos e laboratoriais, que aceite realizar o tratamento por meio do termo de consentimento livre e esclarecido. O tratamento é realizado sob anestesia geral com relaxamento muscular para que o paciente não sinta dor ou qualquer tipo de contração muscular durante a convulsão. Para o paciente é como se ele estivesse dormindo. O estímulo elétrico é, então, aplicado induzindo uma convulsão generalizada. Durante todo o procedimento, o paciente é monitorizado (função cardiovascular, respiratória e também cerebral). É realizada uma sessão por dia e, em média, 8 a 12 sessões para o tratamento de um episódio depressivo maior. 
 

4 - O senhor acredita que esta nova forma de tratamento pode trazer benefícios para o tratamento da depressão?

A eletroconvulsoterapia completou 80 anos de existência. Seu desenvolvimento tem tornado a técnica cada vez mais segura trazendo cada vez mais benefícios para o paciente. Temos que, agora, lutar contra o preconceito sobre o tratamento. 
 

5 - Quais são as maiores dificuldades para o tratamento da depressão? 

Primeiro, a própria doença. O paciente com depressão muitas vezes não reconhece o problema, procura outros especialistas antes, demorando, assim, para iniciar o tratamento. Além disso, pelo menos 30% dos pacientes não respondem ao tratamento antidepressivo. A eletroconvulsoterapia e outros tratamentos não medicamentosos como a estimulação magnética trasncraniana, apesar de muito eficazes, são tratamentos caros e pouco disponíveis para a população. 
 

6 - O preconceito continua sendo um elemento decisivo na dificuldade do tratamento?

Vejo dois grandes problemas, o primeiro é o preconceito que ainda é muito grande. As pessoas acham que é um método arcaico de quase tortura. Também acham que o tratamento “queima neurônios” (obs.: já foi comprovado que o tratamento, na verdade, induz a formação de novos neurônios e conexões entre eles). Outro problema é o custo do procedimento. O tratamento envolve diversos profissionais, bloco cirúrgico, etc. 
 

7 – Que mensagem o senhor deixaria para pacientes que sofrem com esta doença e psiquiatras que se dedicam ao tratamento destes casos?

Para os pacientes e para os psiquiatras que nunca desistam do tratamento, que busquem todos os recursos disponíveis para a plena recuperação.